SÉRIE 1 - #1

02out2021 04h51

A cidade dos penetras

Está começando a série Um rádio na paisagem, um podcast de entrevistas sobre os espaços que nos marcam e contornam.
Redação: Priscila Maia

Sejam bem-vindas e bem-vindos a Um Rádio na Paisagem, um podcast de conversas sobre arte, paisagem e poéticas do espaço, conduzido pelo coreógrafo Gustavo Ciríaco. Esta série é uma realização do SESC São Paulo, e tem produção da Dos Voos. Sua estreia acontece na Bienal Sesc de Dança 2021.  

Nas próximas semanas, todos os sábados um novo episódio vai ao ar, com o intuito de nos aproximar das poéticas espaciais de oito diferentes artistas brasileiros. Em meio a um diálogo em torno da influência da paisagem em suas obras, as conversas são alimentadas por suas referências vindas da literatura, do cinema, do paisagismo, da arquitetura, das artes visuais, das artes cênicas, e da própria experiência com a natureza.

O primeiro episódio do podcast é dedicado à Luciana Lara, artista da dança radicada em Brasília, para onde foi ainda criança, e onde desenvolveu sua trajetória artística, em parte influenciada pelas vicissitudes da cidade. Ouça abaixo A cidade dos penetras.

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selfie de Luciana Lara

Ondas da Terra

Neste primeiro episódio, Luciana Lara relembra as viagens de carro que fazia em família, a caminho de Itanhandu, Minas Gerais, cidade onde nasceu seu pai. Atravessar a Serra da Mantiqueira, para uma criança que não se cansava de "refazer o olhar", era uma fonte intermitente e inesgotável de sensações relativas ao gosto de contemplar, que ela declara ser fundamental para seu fazer artístico até hoje. "Tenho quase que uma espécie de obsessão com olhar de novo. Estar sempre olhando de novo". Em certa altura da conversa, Luciana chama as montanhas de "ondas da Terra" - a chance que a terra dá ao ar de ser água. 

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Serra da Mantiqueira vista de Itanhandu | Foto: Oswaldo Buzzo

Ouça também Minas Gerais / banda O Terno.

Brasília

"Estar em uma cidade extremamente plana, onde o horizonte toca o chão... a montanha sempre foi um espanto!". Brasília é uma personagem marcante da conversa. A amplidão do cerrado - ou o "infinito descampado", como imaginou Vinicius de Moraes - e a posterior velocidade, consequência das inúmeras curvas planejadas para a cidade, são mencionadas como características que permearam a sensibilidade da artista, assim como a pesquisa da Anti Status Quo Companhia de Dança, dirigida por ela desde sua origem, em 1988. "Brasília foi criada na égide da velocidade". Uma vez em Brasília, você está sempre em movimento, contornando e mantendo o fluxo, através de balões, tesourinhas e poucos semáforos. 

"Nascida de um gesto primário de quem assinala um lugar, ou dele toma posse, dois eixos que se cruzam em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz". É assim que Lúcio Costa fala do princípio motor que o levou ao traço da Capital Federal, no documentário Brasília, uma sinfonia, de Regina Martinho da Rocha. Além de ter o formato de um avião, ele queria que ela fosse, ao mesmo tempo, habitacional e monumental: edifícios públicos em grande escala, ruas sem esquinas, e “superquadras” tornaram Brasília um ícone da arquitetura modernista do país.

Preparamos uma lista de filmes para quem quiser se aprofundar sobre a pioneira construção de Brasília, com Brasília, uma sinfonia e muitos outros títulos. Ainda que a seleção também traga a visão dos candangos oprimidos, é um alento poder escutar vozes utópicas em um momento de desesperança como o atual - em parte causado por uma longa e devastadora pandemia. Confira a coleção aqui.

Desenhos de Lucio Costa para Brasília_ Foto- Arquivo Público do Distrito Federal_Fundo Nov

Desenhos de Lucio Costa para Brasília |
Foto: Arquivo Público do Distrito Federal/Fundo Novacap

Juntos e Separados

"Tem mais presença em mim o que me falta". Manoel de Barros é lembrado quando Luciana passa a examinar suas escolhas artísticas. Na marca dos 8’17’’ deste episódio, ela conta que tinha 17 anos quando fundou a Anti Status Quo, a partir da vontade de criar uma dança diferente das aulas que fazia nas academias. Gostava da ideia de laboratório: um lugar onde se investigam modos de ver os movimentos do mundo. "Já de início, surge como um desejo de experimentar, e de questionar os tipos de dança que estavam se fazendo na época". Hoje, a Anti Status Quo tem um núcleo artístico e um de formação - paralelo, mas também tubo de ensaio para as experiências da companhia -, congregando pessoas de diferentes áreas do conhecimento.

Foi no núcleo de formação que surgiu o novo trabalho da companhia, Juntos e Separados, criado durante a pandemia. Uma performance ao vivo em videoconferência, com nove bailarinos interagindo com tudo que está disponível em suas casas, através dos recursos da plataforma Zoom. Funciona como um jogo de imagens e significados que reflete sobre os paradoxos do isolamento mandatório. Desde abril de 2020, a peça já assumiu sete edições inéditas em festivais online, sempre partindo do corpo em relação à tela, na busca de uma subjetividade atenta ao aqui e agora.

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Juntos e Separados (2020) | Foto: Luciana Lara

Cobertos pelo céu

Quando Gustavo diz que Luciana é sua "irmã contextual", o que ele quer dizer é que ambos têm como motor de pesquisa a relação (dinâmica) com o espaço. Suas sensibilidades flertam com o site-specific, com as experiências compartilhadas, e com a ideia de que o espaço - e também o participante/espectador- cria junto e é parte fundante da obra. 

Um Rádio na Paisagem só existe porque antes existe o Cobertos pelo céu, uma coleção de performances e instalações concebida por Gustavo, em colaboração com artistas que o instigam, especialmente, pelas operações poéticas que realizam com o espaço. O projeto da coleção toma como desafio inventar maneiras de traduzir e re-instalar experiências de paisagem que marcaram a biografia desses artistas, donos de uma poética espacial singular.

A experiência de Luciana com a Serra da Mantiqueira gerou uma instalação: em alusão às montanhas de Minas Gerais, Gustavo criou uma peça-móbile, com cordas sustentadas por forquilhas e o chão liso coberto por cordas coloridas, com as quais os bailarinos permanecem criando movimento, continuadamente nos planos vertical e horizontal. Paisagem em linha estreia no festival Temps d'Images, na Galeria Municipal Avenida da Índia, em Lisboa, no dia 23 de outubro de 2021.

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Paisagem em Linha  | Foto: Gustavo Ciríaco

Cidade em plano

Luciana sempre viu a dança como um ponto de partida, "mas não necessariamente como um ponto de chegada". E o marco do amadurecimento deste pensamento é a coreografia Cidade em Plano, de 2006, quando, pela primeira vez, a pesquisa sai dos lugares fechados e vai para o ar livre da cidade. Sua concepção de espetáculo, então, se transformou de forma incontornável. Luciana passa a se interessar pela ideia de perspectiva - de quem vive na cidade e de quem habita o seu próprio corpo.  "Nem é mais espectador, é esse participante com quem você compartilha uma experiência. Mais do que mostrar, você compartilha uma experiência. Tem uma modificação muito grande aí". Cidade em Plano é também livro, e você pode adquiri-lo por aqui.

Dalí

"O que eu quero estudar agora?". A cada nova criação, Luciana se mantém motivada por esse mote. Se fôssemos resumir seus trabalhos em um único termo, talvez o mais pertinente fosse pesquisa de linguagem. "Estudar, entender. Às vezes pode ser uma sensação, às vezes uma percepção, ou mesmo uma experiência me dá o desejo de ir mais a fundo". Por isso, vemos tanta diversidade em suas criações. 

Por volta do minuto 17' do episódio, Luciana comenta sobre outra influência importante na sua pesquisa: o surrealismo. No ano 2000, para a criação de Dalí, ela mergulhou nos conceitos por trás do surrealismo -  acesso ao inconsciente, a estética dos sonhos e a busca pela liberdade da imaginação -, assim como praticou procedimentos caros aos surrealistas - a metodologia da escrita automática, o uso da justaposição de elementos simbólicos na composição, e mais especificamente o método paranoico-crítico de Salvador Dalí. 

Para saber mais sobre o movimento artístico nascido em Paris na década de 20 do século passado, veja aqui o episódio 201 do programa Falando Nisso, do psicanalista Christian Dunker.  

Espetáculo "Dalí" (2000). Bailarinos: Larissa Salgado, Leonardo Hernandes e Cleani Marques | Foto: Mila Petrillo

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Ópera de Arame

Estar em movimento como entrada para a sensação. Gustavo fala em portal, Luciana fala em passagem. Em certo momento da entrevista, conversam sobre a natureza da contemplação: tudo que ela permite ao corpo, e como ela faz para que o fora se torne dentro. Logo Luciana resgata a memória da Ópera de Arame, teatro de Curitiba (PR), feito de tubos de aço e estruturas metálicas, coberto por placas transparentes que expõem o lago e a mata ao redor. Para ela, a experiência na Ópera está associada à experiência com as montanhas: por conta do desenho, e do escancarado das linhas, ambas levam Luciana para a infância. 

"Ali, a coisa é dada, você nem racionaliza, nem traduz em qualquer outra linguagem… a sensação é de estar dentro e viver aquilo". Na Ópera de Arame, todas as linhas que formam o prédio estão visíveis; dentro e fora se misturam, com o verde que derrama pelas linhas de arame. De autoria do arquiteto paranaense Domingos Bogestabs, a Ópera foi construída no Parque das Pedreiras, e você pode escutar o criador falando sobre suas motivações aqui

Nudez

Na marca do 30'03'' da conversa, Gustavo menciona novamente a Cidade em Plano, dessa vez chamando a atenção para a presença da nudez na obra. Luciana também usou o corpo nu na peça Camaleões (2009), na qual os bailarinos vão para ruas visualmente poluídas, com propagandas coladas no corpo, camuflando-se e, de certa forma, desaparecendo no espaço. A artista entende a nudez como um figurino: você a incorpora da mesma maneira que veste uma roupa. Uma história que a inspira volta ao tempo da Antiguidade Clássica: naquela altura, em Atenas, os gregos diziam que gostavam de andar nus porque os bárbaros vestiam pele de animais na floresta. "Uma ideia civilizatória, e de orgulho, da arquitetura e da construção cultural que é uma cidade". 

Esse entendimento de nudez como incorporação da cultura faz Gustavo lembrar do escritor e filósofo italiano Emanuele Coccia, que no livro O Bem nas coisas, analisa a onipresente presença da publicidade na vida pública, e estabelece relações entre o muro e a cidade. Emanuele costuma vir ao Brasil, e mantém uma longa amizade com o ambientalista e líder indígena Ailton Krenak. Aqui,  você pode conhecer Emanuele Coccia um pouco melhor, em interação com o projeto Conversa Selvagem - ciclo de estudos sobre a Vida

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"Camaleões" (2009) | Foto: Luciana Lara

Delicadeza

 

Microutopias Cotidianas Aglutinantes do Lugar estreou em 2019 e é a 11ª obra da Companhia. Luciana nos conta que ela dialoga com Cidade em Plano, por se tratar de uma coreografia-promenade: um site-specific em relação direta com Brasília. Último trabalho coreografado para o mundo do antigo normal, foi pensado como um mapa do tesouro, a partir de um mapeamento sensível do espaço urbano - como o corpo reage, sensorial e cineticamente, no espaço de um trajeto. 

Cada bailarino criou três mapas e pistas foram inseridas ao longo de uma trilha. "A gente mais ativa o espaço. A cidade performa para você, e não a gente performa para a cidade. Não gosto da palavra intervir, intervenção, porque parece que estou intervindo, cortando o espaço, tem algo de violento aí". Sobre os lugares, ela sempre pergunta: quais são as suas regras? "O que está ali construindo aquele contexto? Como é que você entra no espaço com a delicadeza de compartilhá-lo, entendendo que ele é público, mas isso não significa que ele é seu?". 

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Microutopias Cotidianas Aglutinantes do Lugar (2019) | Fotocolagem: Danilo Fleury/ Coarquitetos

Estudo dos Esforços

Inevitável não falar de Laban. Em 1996, Luciana recebeu uma bolsa da Capes e foi para Londres, para uma temporada de dois anos de estudos em Coreografia e Coreologia, no Laban Centre. Na sua dissertação de mestrado - concluído em 2014 no Departamento de Artes Visuais da UNB -, ela relata que o encontro com a Análise Laban de Movimento a fez "perder a inocência". Começou a encarar o espaço de forma mais racional, vendo a "criação em dança como um processo de tecer relações e sentidos". 

Rudolf Laban foi um pensador, dançarino, coreógrafo, e um dos mais importantes teóricos da dança do século XX. Nascido no então Império Austro-Húngaro, estudou arquitetura em Paris, e logo se interessou pelas relações entre o movimento humano e o espaço que o circunda. Da dança coral - de estrutura simples, envolvendo um grande número de pessoas sem formação em dança - ao uso da escala dimensional nas figuras geométricas, foram muitas as contribuições de Laban à modernidade da dança, e seu pensamento ainda é extremamente relevante. 

Na Inglaterra, onde se exilou do nazismo, encontrou contexto para desenvolver uma metodologia de análise de movimento - "Effort-Study" (estudo dos esforços) -, primeiramente direcionada ao treinamento de operários de uma indústria. Poderíamos escrever sobre Laban por horas, tamanha é a sua pertinência. Mas temos que avançar para o próximo episódio. Para saber mais sobre ele, comece por aqui.

Espiral

Instigada a pensar sobre uma possível relação entre estar nas montanhas e as espirais, Luciana comenta sobre a riqueza de termos várias perspectivas ao longo deste tipo de movimento. Conforme percorremos as curvas que constituem uma espiral, nossa  sensação de espaço vai se alterando. Ao passarmos para um nível mais alto do espaço, passamos a olhar a paisagem de um outro prisma, e nossa percepção vai se transformando continuamente. A espiral comove Luciana. Fá-la pensar "em como a gente percebe as coisas". E como a gente constrói o mundo, o tempo todo, a partir delas. 

"Labanizando" a célebre frase do filósofo Blaise Pascal, o corpo tem razões que a própria razão desconhece. Podemos subitamente fazer uma nova combinação sinestésica, perceber pela primeira vez, descobrir algo e nos supreender. É assim que Gustavo e e Luciana trabalham: refazendo o próprio olhar, e nos convidando a fazer o mesmo.

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Répteis (1943), de Maurits Cornelis Escher |
© M.C. Escher Foundation – Baarn – The Netherlands

Continue acompanhando a série de podcast Um rádio na Paisagem.
Semana que vem, voltamos com um novo texto, e um novo episódio. Até lá!

Concepção, direção artística e entrevistas: Gustavo Ciríaco

Artistas entrevistados: Ana Pi, Bruno Levorin, João Saldanha, Laura Lima, Luciana Lara, Marcelo Evelin, Maya Da-rin e Michelle Moura

Comunicação, produção executiva e redação: Priscila Maia

Edição de som e música: Fabiano Araruna

Web Design e programação visual: Marina Lutfi

Desenhos: Gonçalo Lopes

Administração - Mídias Sociais: Mariana Marques

Produção: Dos Voos – Soluções em Arte e Design

Apoio: THIRD - Amsterdam University of the Arts

Realização: Sesc SP