SÉRIE 1 - #3

16out2021 10h03

Erupções e Planícies

O novo episódio do podcast Um Rádio na Paisagem já está online. Ouçam agora Erupções e Planícies, o terceiro episódio da primeira série de entrevistas sobre paisagem. Concebido e dirigido pelo coreógrafo Gustavo Ciríaco, este programa é uma realização do SESC São Paulo com produção da Dos Voos.

Redação: Priscila Maia
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Erupções e Planícies é uma conversa com a bailarina e coreógrafa Michelle Moura. Nascida em Joinville, Michelle foi para Curitiba estudar psicologia, mas acabou descobrindo a dança e seus planos mudaram completamente. Hoje, Michelle mora em Berlim, mas foi em Curitiba que teve início sua trajetória artística. Nos anos de 2003 e 2004, Michelle e mais seis amigos artistas - Cândida Monte, Cristiane Bouger, Elisabete Finger, Gustavo Bitencourt, Neto Machado e Ricardo Marinelli - se juntaram ao redor de alguns valores e criaram a Couve-Flor - Minicomunidade Artística Mundial.

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Michelle Moura em Fole (2013) | Foto: Cristiano Prim | Arte: Renata Moura

Couve-Flor

Artistas com distintos históricos profissionais, tinham em comum o interesse pelos novos modos de produção em dança a partir da colaboração artística, além de terem passado, como bolsistas, pela Casa Hoffmann, na época sob a coordenação de Rosane Chamecki e Andrea Lerner. Em um primeiro momento, queriam fazer circular seus trabalhos, produzidos em residência na Casa Hoffmann, e organizados em formato mostra. Com a Mostra Tudo, ganharam o prêmio Funarte de Circulação Nacional, e uma prova de que estavam no caminho certo.

 

A escolha do nome tem a ver com o caráter fractal da hortaliça: cada flor fala do todo, e o todo está presente em cada flor. As palavras do nome falam sobre a intenção do encontro. Minicomunidade porque são pequenos. Artística porque trabalham com arte. Mundial porque se preocupam com o todo e com seus pedaços. Concretos, analíticos e ambiciosos: sonhavam e realizavam modos colaborativos de criação nos quais também individualmente se afirmavam. As propostas artísticas eram individuais, e os demais se envolviam de acordo com as próprias motivações e necessidades. 

 

Na sede da minicomunidade - Cafofo Couve-Flor, no bairro Rebouças, em Curitiba -, apresentavam suas obras e articulavam encontros, ensaios, performances, futuros e colaborações. Foram sete anos intensos de existência, com diferentes estruturas hierárquicas e momentâneas, e um sentimento compartilhado de realização e crescimento.

"Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades". Em 2011, decidiram passar um ano celebrando a morte do coletivo. Não era triste terminar. Havia uma clareza de que tinham conquistado muito. Cada um escreveu uma carta em homenagem ao fim, e aos poucos - em sete tempos diferentes -, foi-se instalando uma nova fase: agora, eram artistas independentes. Sobre este acontecimento (leguminoso), fica a frase do Neto Machado: "O Couve-Flor Minicomunidade Artística Mundial nasceu em Curitiba/PR, de parto normal. Ninguém sabe direito quem é o pai, mas a mãe, são sete”.

Artistas da minicomunidade realizando ação de casamento (2005)  | Foto: Couve-Flor

Michelle realizando a ação Viúvas (2012) | Foto: Couve-Flor

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Transparência

A conversa entre Michelle e Gustavo se deu entre Berlim e a Ilha de São Miguel, no arquipélago dos Açores, em Portugal, onde o entrevistador estava de passagem. Interessado pelas lembranças de infância da coreógrafa, Gustavo pede para Michelle relembrar sua primeira experiência de paisagem. "O seu projeto me fez perceber o que eu ainda não tinha percebido: o quanto a relação com o espaço está presente na minha vida desde muito tempo". 

 

De frente para uma janela, ela relembra de quando, por volta dos três anos de idade, correu para a janela para ver onde estava a sua mãe e não a achou. Sua casa se voltava para uma rua pequena, onde a família deixava o carro. Michelle não avistou o carro e deduziu que estava sozinha. Sentindo-se abandonada, decidiu ir para debaixo da mesa de vidro, totalmente transparente, mas igualmente acolhedora. "Tinha um tapete também, bem peludo, de lã, e às vezes eu consigo me lembrar, ainda hoje, do cheiro desse tapete". Foi na proteção da mesa que ela encontrou um aconchego para o inédito sentimento de solidão que viveu.

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Nuvem para meia altura (2015), de José Bechara | Papel glassine, vidros e lâmpadas; dimensões variáveis | Vista parcial da exposição Squares and Patterns, no Ludwig Museum, Koblenz, Alemanha.

Escala

A relação entre Gustavo e Michelle é, imediatamente, espacial. Enquanto um mede 1,92, a outra mede 1,46. Se vocês, leitores, não conhecem o corpo dos dois, podem imaginar um peixe carpa ou uma mochila. Essa é a diferença entre eles. Nosso corpo é nosso "tamanho no mundo". Gustavo fala em fincadores de realidade: coisas que, mesmo que pequenas, são capazes de criar espaço. Como um vendedor ambulante, que uma vez viu no Centro Antigo do Rio, usando dois cabos de vassoura enfiados em latas para limitar o perímetro da sua loja. 

Precisar o motivo seria psicanalítico demais para uma conversa sobre arte. O que vale ressaltar é que as obras de Michelle são marcadas por uma minuciosa preocupação com a escala, seja através da escolha de um ponto focal mínimo, ou mesmo do uso hiperlativo de um objeto cênico. A atenção da coreógrafa se concentra nos detalhes, em performances onde costuma criar restrições cinéticas para explorar mudanças físicas e psicológicas. Entre o mergulho nos fluxos do corpo - o que vai dentro e o que corre por fora -, a protuberância da ação e a escrita de um movimento que vira dança e espaço. 

Big Bang Boom

No site de Michelle, diz que "um corpo sempre transforma outro corpo". Porém, a qualidade da relação depende de onde estamos. Em Big Bang Boom, que estreou no Parque Lage/RJ, durante o Festival Panorama de 2012, Michelle convida os espectadores a criarem e destruírem mais devagar. Especificamente, Gustavo pede para que Michelle comente sobre o processo de vida e morte que se dá em relação ao chão desse trabalho.


Como resposta, ela comenta sobre a própria lentidão que viveu para criá-lo: "o trabalho estava se fazendo durante seis anos". Conta que em 2006, estava se questionando quanto a sua real motivação para se mover, influenciada pelos preceitos da dança conceitual, produzida, principalmente na França, a partir da década de 90. Ou o que a pesquisadora e professora Angelica Vier Munhoz chamou de "grau zero da dança".

Reduzir para expandir. Assim definiu Jêrome Bel, ícone da dança conceitual francesa, e referência para muitos coreógrafos pelo mundo: “o grau zero é a evidência do corpo nu, nem mais, nem menos. Entretanto, no coração desta abordagem, essa busca, cada vez, se esquiva: Eu digo, começaremos do zero e vamos fazer 1; 2; 3; 4, e nós fazemos -1; -2; -3; - 4. Por onde começa? Onde termina?”. 

 

Big Bang Boom apostou no espaço. Michelle se perguntou: "e se o espaço movesse, eu prestaria atenção nele?". Elemento mais marcante da coreografia, o papel veio a entrar por acaso, durante uma residência em Lisboa. Em frente ao galpão onde ensaiava, encontrou rolos de bobinas de papel, resíduos de uma gráfica que também funcionava no local. Neles, ainda havia vinte metros de papel, e os rolos mediam exatamente o seu tamanho - e também da bailarina Karenina de los Santos, que colaborava com Michelle na época. 

 

Esta sincronicidade atraiu Michelle. "Agora estamos trabalhando em uma escala que me faz automaticamente pensar num piso de dança". Observar o movimento do chão a partir de um foco geológico. O movimento está todo no papel; as bailarinas, que quase nunca aparecem, animam a imensa folha de papel, e a coreografia, então, passa a tratar disso: paisagens e fenômenos, sendo vagarosamente moldados e demolidos. 

 

Outra ficha que lhe caiu na altura foi perceber-se dependente da sala de ensaio. "Percebi que precisava estar em estúdio, que eu resolveria as minhas questões pela ação, e não só pelo pensamento". Talvez se pronunciasse ali outra característica do estilo de Michelle: a ambiguidade. Falaremos disso mais para frente.

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Big Bang Boom, durante a Bienal Sesc de Dança 2013, no Museu do Café, em Santos/SP | Foto: Carolina Moraes

Cavalo

Gustavo traz Nietzsche para perto, mais especificamente seu conceito de vontade de potência. Uma contínua tensão, ou força cega irracional, que ele chamou de vontade, constituinte da essência dinâmica do mundo. Em outras palavras, Nietzsche também se referia ao poder de decisão, motivação e condução presente em cada corpo. É como se, independente das relações traçadas, sempre houvesse um mundo solitário em cada ser.

 

Em Cavalo, era a vontade de potência - e a multiplicidade de suas expressões - que movia a curiosidade de Michelle. "Foi no Cavalo que eu comecei a perceber, que eu acessei pela primeira vez enquanto eu performava, que enquanto eu performo, na verdade, eu não sou mais eu". Na umbanda, o termo cavalo é utilizado quando se faz referência a uma pessoa em estado de transe com sua entidade. Fulano é "cavalo de Vó Gambina", por exemplo. Como em todas as formas de transe, na Umbanda é necessário uma série de ritos de iniciação com o intuito de transformar a pessoa em um veículo. 

 

Cavalo fez parte do projeto 6 por ½ dúzia, contemplado com o prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2009, concedido à Couve-Flor, e estreou em 2010, no TUC (Teatro Universitário de Curitiba).  "O que move eu me mover?", relembra Michelle, como frase-mote de pesquisa. Na altura, ela morava em Angers, onde estudava no Centre National de la Danse Contemporaine. Por ser estrangeira, não conhecia o circuito de música eletrônica francês, e começou a sentir falta das raves que frequentava no Brasil, e também das substâncias psicotrópicas - especificamente, o MDMA (midomafetamina), também conhecido como ecstasy ou "pílula do amor". Falaremos mais sobre isso logo à frente.

 

O fenômeno das raves foi particularmente expressivo na década de 90, em vários países do mundo, por conta da popularização dos meios de se fazer música eletrônica. Um dos movimentos de contracultura mais influentes e radicais da história recente, as raves são festas de longa duração que geralmente acontecem fora do perímetro urbano, e onde se dança sem hora para parar, ao som de subgêneros da música eletrônica, como house, electro, techno, minimal e psy e trance.


"Quando eu reconheci essa falta, eu me disse: então eu vou para o estúdio, repetir - tentar repetir - as mesmas sensações físicas e mentais. Afinal de contas, eu estava dançando". Aqui, vocês podem ver um trecho de Cavalo (e imaginar o resto).

Michelle, em cena, com Cavalo | Foto de Divulgação

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Ambiguidade

 

E eis que surge, o tema da ambiguidade, aos 31'07 do episódio. Ao detalhar o processo de pesquisa da peça Cavalo, comenta que ao descobrir, em ensaio, a sensação de expansão dos olhos e do diafragma, consequentemente se deparou com o seu oposto - a contração. 

 

"É a ambigüidade de quem move quem, o cavalo que move o cavaleiro, o cavalo que é movido pelo cavaleiro". Essa frase, que aparece no release de Cavalo, ajuda a entendermos a inquietação que movia Michelle na época. "Hoje, eu chamaria de polaridade". Fato é que ela descobriu que um movimento do corpo alterava sua percepção, mas também fazia com que pudesse "navegar entre diferentes estados", investindo, expressivamente, no trânsito da viagem.  

Acolhimento

Com coordenação dos pesquisadores Gabriel Santos Elias e Harumi Visconti, e colaboração de dezenove outros cientistas - dentre eles, o neurocientista Sidarta Ribeiro -, a PBPD (Plataforma Brasileira de Política de Drogas) lançou, em 2018, o Guia de Bolso para Debates sobre Política de Drogas, com o caráter informativo e aberto aos candidates que disputariam as iminentes eleições. O atual governo federal demonstra que está francamente distante dessa visão de mundo, mas não é por isso que ela seja menos relevante. "Droga é caso de política", ainda que siga sendo tratada como de polícia, em países como Rússia, Filipas e Brasil. 

 

Sobre este assunto, indicamos leituras desprovidas de julgamento jurídico, atravessadas por recentes estudos científicos sobre os efeitos positivos do uso terapêutico de algumas substâncias psicoativas para a cura de algumas doenças, tais como transtorno de estresse pós-traumático (TSPT), depressão grave, e certos tipos de câncer de sangue, por exemplo. Michelle menciona essas pesquisas, em relação ao consumo assistido de MDMA e a superação de traumas. 

Na marca do minuto ''34, a entrevistada resgata uma fase particularmente difícil de sua vida: a saída de casa. Quando tinha 17 anos, Michelle precisou se mudar para Curitiba para frequentar a universidade, ainda sem ter certeza sobre sua escolha profissional. Sentia-se pressionada com a (inconcebível) consequência que seus atos poderiam provocar. Sentia-se principalmente amedrontada quando chegava a hora de ir para faculdade. Descobriu que andar de mãos dadas com uma amiga lhe dava forças, assim como parar sob um orelhão do caminho e esperar o aconchego se manifestar.

 

Gustavo associa a história do orelhão às proposições artístico-terapêuticas de Lygia Clark. Em sua última fase de vida, conhecida como Estruturação do Self, arte e clínica estavam totalmente misturadas. Lygia passou a entender seus Objetos Relacionais não mais como pertencentes às galerias de arte. Começou a atender por sessões, nas quais acessava, através do sensorial, os medos e fragilidades de seus "clientes" - que inclusive, pagavam pelo tratamento.

 

Em 2020, Lygia Clark teria completado 100 anos. Por conta da pandemia de covid-19, as celebrações presenciais só estão acontecendo agora. 

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Cliente com os Objetos Relacionais sobre o Grande Colchão, durante uma sessão de Estruturação do Self (1977), conduzida por Lygia Clark | Foto: Círculo Brasileiro da Psicanálise

O não-saber

Em carta a Hélio Oiticica, datada de 17 de maio de 1971, já com cinquenta anos e no auge das descobertas "só com o corpo sem objeto algum", Lygia escreve: "onde a patologia, onde a saúde, onde a criação? Não sei. O não-saber é lindo". À sua maneira, Michelle também se lançou no desconhecido quando criou Coreografia estudo#1, que ela descreve como um "puzzle ótico". Na ocasião, estava querendo entender a separação entre dança e coreografia, então, propôs-se a escavar uma coreografia que emergisse da dança. "Eu sou muito interessada em emergências". Pesquisou em um terreno oposto ao que vinha pesquisando: o foco de Coreografia estudo#1 é a própria estrutura. 

 

"Faz parte de um desejo de tocar em lugares que eu ainda não tinha tocado, e de aprender novas habilidades, enquanto faz o próprio trabalho". Organizou a coreografia de forma racional, tentando controlar a priori, com passos e desenhos de percursos espaciais transferidos para o papel. "Sempre nesse movimento, entre a medida do passo e o desenho do papel, e como levar isso de novo pro passo. Então, é, tipo, matemático o trabalho".  

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Coreografia estudo#1 (2016) | Bailarinos: Bernardo Stumpf e Bia Figueiredo | Foto: Victor Rodrigues

Isadora Duncan

Michelle conheceu Isadora Duncan em 1999, quando decidiu fazer um curso prático-teórico de dança moderna, na Universidade Federal do Paraná, justamente para sair um pouco do ambiente da psicologia. Na aula de História da Dança, falaram de Isadora, a inventora da disciplina que ali estudavam. "Me despertou uma dimensão da dança que eu não conhecia". 

 

Dimensão política e social, para além do clássico e do entretenimento. Ateia, feminista, bissexual e artista avant-garde, Isadora Duncan não só inaugurou uma nova maneira de dançar, despojada dos valores da dança clássica, como se conectou com as manifestações e forças da natureza, como nenhum outro dançarino da época. Movia-se descalça, vestindo tecidos esvoaçantes que chegavam a revelar sua nudez, com uma liberdade ímpar, cujas marcas são a aceitação da gravidade no corpo e a abertura do plexo solar para o espaço.  

 

Como menciona Gustavo, Isadora vivia próxima à "iminência de uma queda" - e talvez por isso, sua vida tenha sido atingida por tantas tragédias (o afogamento dos filhos, e a sua própria morte, estrangulada pela própria echarpe enrolada na roda do carro).

Ler Minha Vida, sua autobiografia, é uma experiência imprescindível para qualquer bailarine do mundo. Foi Isadora Duncan que fez Michelle Moura mudar o rumo de sua vida para se tornar bailarina. No minuto 44'06'', confessa que ainda tem vontade de aprender o repertório dela.

Isadora Duncan | Foto: Arnold Genthe

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Dança degenerativa

Com Coreografia estudo#1, Michelle pôde treinar seu olhar de direção, que para ela, é totalmente diferente de quando também está performando. Ver quatro bailarinos atualizando suas ideias proporcionaram à Michelle a oportunidade de ser espectadora da própria criação. "Não tem memória física pra mim. Ou a memória física passa por um lugar mais da percepção, do olhar, e da razão. É diferente, é bem diferente". A bailarina é tão ativa quanto a coreógrafa; são raras as chances de somente olhar de fora. 

 

Já perto do fim da entrevista, Gustavo conta que viu recentemente Michelle em cena, na peça Overtongue (2021), mais especificamente na Casa de Dança de Almada, dirigida pelos brasileiros Adriana Grechi e Amaury Cacciacarro. Ele traçou uma linha unindo três de seus trabalhos: Fole (2013), Blink mini uníssono intenso lamúrio (2015), e Overtongue. Para ele, essas peças reivindicam um envolvimento intenso da performer, então concentrada em um certo micromovimento do corpo. 


Cada uma do seu modo - em Blink, com o piscar; em Fole, com o respirar; e em Overtongue, com a vocalização dissociada -, essas peças investem na repetição com diferença de escala. Da manutenção de um estado ambivalente de movimento, surgem deformações e calculadas instabilidades. Paisagens fugazes, ora microscópicas, ora exageradas, mas que sempre remetem à imaginação, à emoção, e por que não, à alucinação.

Colagem feita para Overtongue (2021), feita por Manuela Eichner

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Fole

 

Para criar Fole, Michelle conta que foi influenciada por uma prática terapêutica chamada Respiração Holotrópica. Criada por Stanislav Grof (psicólogo e psiquiatra) e Christina Grof (praticante de yoga), trata-se de uma abordagem experiencial de terapia transpessoal e autoexploração, cuja técnica se baseia na aceleração da respiração. No site da Respiração Holotrópica no Brasil, descobre-se que "holotrópico significa “movendo-se em direção à totalidade” e sugere tanto um movimento de reintegração de partes fragmentadas de si mesmo, quanto de reconexão com uma dimensão maior". 

 

"Eles amplificam, ampliam a ideia de um exercício de pranayama para uma prática de duas horas de respiração intensa". Michelle conheceu a técnica com dois psicólogos brasileiros, e tanto se permitiu ser transformada pela experiência, que a levou para a sala de ensaio.  Decidiu fazer um trabalho onde só respirasse. Fazia sentido para o seu universo imaginativo da época. Sabia sobre as polaridades do movimento. A linha de suas peças é sempre crescente. 

 

Fole (2013) | Foto: Nacho Correa

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Convite

 

Não nos cabe dar spoiler. Este texto é apenas uma forma de expandir as referências dos assuntos que rolaram na entrevista. E também para convocá-los a conhecer mais sobre os artistas de Um Rádio na Paisagem.

 

Se daqui a 30 ou 40 anos, alguém resolver pesquisar sobre respiração holotrópica, ou querer saber quem foi Isadora Duncan, de quebra, vai encontrar a Michelle Moura entrelaçada, e chegar ao nosso querido podcast. "Deixo aos vários futuros (não a todos) meu jardim de caminhos que se bifurcam". Dados sonoros não são indexados por buscadores. Se não fosse a palavra escrita, boiaríamos desgovernados na imensa rede. 


Conversas infinitas, a vida está mais pra ensaio que pra show. Ao fim do episódio, Michelle convida os ouvintes a experimentarem um procedimento da peça Blink mini uníssono intenso lamúrio. Ao fim desse texto, o convite é para que voltem a visitar-nos.

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Blink mini uníssono intenso lamúrio (2015) | Bailarinas-coreógrafas: Clara Saito e Michelle Moura | Foto: Marco Flávio

Concepção, direção artística e entrevistas: Gustavo Ciríaco

Artistas entrevistados: Ana Pi, Bruno Levorin, João Saldanha, Laura Lima, Luciana Lara, Marcelo Evelin, Maya Da-rin e Michelle Moura

Comunicação, produção executiva e redação: Priscila Maia

Edição de som e música: Fabiano Araruna

Web Design e programação visual: Marina Lutfi

Desenhos: Gonçalo Lopes

Administração - Mídias Sociais: Mariana Marques

Produção: Dos Voos – Soluções em Arte e Design

Apoio: THIRD - Amsterdam University of the Arts

Realização: Sesc SP