SÉRIE 2 - #4

20nov2021 12h02

Uma presença em aparição

 Este é o último episódio do projeto Um rádio na Paisagem. A bem dizer, desta fase do projeto. Faremos uma pausa, para que possamos imaginar quais serão as próximas paisagens. Mas este episódio reserva uma magia especial. A conversa com a bailarina, coreógrafa e multiartista Ana Pi nos leva para a África, passando por Belo Horizonte e Haiti. Escolha sua plataforma, e deixe-se levar pelos caminhos de Ana Pi.

Redação: Mariana Marques e Priscila Maia

"Meu corpo é um corpo que dançou no dia de hoje. Dançou muito". Esta é Ana Pi: um corpo que dança muito. Nascida em Belo Horizonte, em seus 35 anos de vida, já morou em Pirenópolis, Salvador, Montpellier (FR) e Paris, cidade onde vive agora, e onde está prestes a estrear um novo trabalho, "absolutamente pandêmico". A peça The Divine Cypher (A divina roda) estreia dia 18 de novembro no teatro La Briqueterie, em Vitry-sur-Seine na periferia de Paris. "Antes de começar esse deslocamento mais transatlântico, eu sou uma periférica". Valorosa e caminhante, talentosa e sonhadora. É impossível passar intacto por Ana Pi.

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Mission Spatiale (2021), coreografia, interpretação e manipulação de imagem de Ana Pi | Foto original: Iris Medeiros

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Meu pé esquerdo

No dia em que foi entrevistada, havia uma tensão específica no ar. Todo dia quatro traz isso para Ana. Há três anos e oito meses, em quatro de março de 2018, o pai dela, o artista plástico Júlio César de Oliveira, foi visto pela última vez, em sua casa em Belo Horizonte. Por mais que ela esteja feliz, ali enquanto conversa com Gustavo, não há dia em que a ausência seja superada.

Em seu perfil no facebook, Ana escreve cartas para o pai, todos os meses, desde o dia em que desapareceu. São tão comoventes que chegam a ser universais. "É Pai. É mesmo, ter coragem é correr risco. Você avisava e ainda avisa, porque desaparecimento não é morte". Em sua última carta, Ana diz que segue assim, "a esperar e a esperançar". 

"Ele é um homem negro, é um homem artista. Eu sou uma mulher negra, uma mulher artista". Uma mulher que não se intimida com os próprios afetos e convicções, com parte do corpo na terra e outro no céu. Durante a entrevista, Ana Pi manteve o pé direito no chão e o pé esquerdo no ar, com a mão recostada no espaço entre as pernas, de um jeito bem agradável, para deixar a conversa rolar.  

Paulo Freire

Ana Pi se entende como coreógrafa, artista visual, pesquisadora em danças urbanas, dançarina extemporânea e pedagoga. Sua prática situa-se entre as noções de trânsito, deslocamento, pertencimento, sobreposição, memória, cores e gestos ordinários. Para início de conversa, Gustavo volta ao passado de Ana, mais especificamente para o Videodançar - um verbo possível (2009), seu trabalho de conclusão do curso de licenciatura em dança, pela Universidade Federal da Bahia. Vê ali um gérmen de Paulo Freire, centenário educador morto em 1997, perene e atemporal por suas práticas e ideário de mundo. 

Videodançar surgiu de uma experiência de oficina no Espaço Cultural Comunitário da Fundação Pierre Verger, em Salvador, onde Ana encontrou a situação ideal para introduzir e praticar a linguagem da videodança com um grupo de alunos  entre 10 e 14 anos. Antes de se colocar como criadora, preferiu o caminho da escuta que dignifica, abrindo-se aos interesses, às brincadeiras e ao cotidiano das crianças com quem trabalhou. Assim como Paulo Freire, que em 1963, em Angicos/RN, alfabetizou 300 adultos em uma convivência de 40 horas, tendo como base o respeito, e aproveitando-se do universo de palavras, falas e das noções que encontrou ali. Às vésperas do Golpe Militar, analfabetos não votavam no Brasil. Em Angicos, Paulo Freire não só ensinou essas pessoas a ler e a escrever, mas também as tornou eleitores. 

Foi um homem radicalmente amoroso, até hoje o escritor com mais títulos Honoris causa do mundo. Arejou a sociedade com termos como 'boniteza', 'ser mais', 'esperançar' e tantos outros. É compreensível Paulo Freire ter se tornado tão mal falado em tempos de notícias falsas, favoráveis a deturpações. Ele também foi polemizado durante a ditadura, tachado de 'comunista' e 'subversivo'. Ana Pi se graduou durante um período de mudanças na escola de dança da UFBA, que justamente decidiu se alinhar às práticas pedagógicas freirianas. "Paulo Freire, felizmente, fez parte de toda a minha trajetória enquanto universitária". 

Entretanto, seria mentira dizer que Ana conheceu Paulo Freire na graduação. Ela diz que aprendeu seus valores dentro de casa. "Como a gente vai dizer lá em Minas, 'quando você vai na casa dos outros, você presta atenção'. Para Ana, observar e escutar são aprendizados que ela recebeu na infância, e que nortearam sua experiência de deslocamento e de partilha. Ana Pi acredita e frequenta terreiro, e "no terreiro, a gente também presta atenção onde a gente está pisando". 

Se você chegou até este ponto sem nunca ter lido ou escutado Paulo Freire, recupere o tempo agora - e para isso, vamos te ajudar. Preparamos uma playlist com vídeos de entrevistas que ele mesmo concedeu, e depoimentos de pessoas transformadas por ele. Aprecie sem moderação.

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Paulo Freire com a turma de Angicos, durante a formatura e trinta anos depois | Foto: Acervo Paulo Freire

Deslocamentos

"Eu sou uma forasteira, eu sou uma viajante". Quando criança e adolescente, morava na periferia, e sempre precisou realizar longos deslocamentos para se locomover. Ela gosta dos ditos populares, e para falar sobre sua condição no mundo, lembra de "em terra alheia, pisa devagar". Avançar com calma e leveza, que assim se vai longe.

A sabedoria dessas expressões mora em sua imensurável flexibilidade. Faz sentido em todos os contextos, e nos guiam como amuletos espirituais. No caso do ateliê que deu origem à Videodançar, a adaptabilidade possibilitou que Ana se tornasse fã da Beyoncé, a quem suas alunas amavam e se inspiravam - especialmente, o clipe de Single Ladies

Coube a Ana orientar e estruturar o resultado, que ganhou o nome de Brincadeira, a videodança, fruto das decisões das meninas, já sensibilizadas pelos três meses de convivência no Espaço Pierre Verger. Elas escolheram usar o espaço externo, e o tema das brincadeiras em grupo. "Até hoje eu trabalho com adolescentes, e eu adoro. Me sinto me conectando, mesmo, com uma certa temporalidade".

Frame de Brincadeira, a videodança (2009), dirigida por Ana Pi

Belo Horizonte

Dentro da família, Ana faz parte da primeira geração propriamente belo-horizontina, e talvez por conta disso, desenvolveu um carinho especial pela cidade. "Tem cheiro de pão de queijo e de café". A primeira cidade planejada do Brasil foi inaugurada em 1897, influenciada pelo urbanismo de Paris, e pelos ventos de progresso e modernidade. Belo Horizonte rompeu com a arquitetura colonial, e instaurou o estilo neoclássico francês em suas construções, principalmente devido à influência que os imigrantes europeus exerceram sobre a elite brasileira. 

Assim como em Paris, onde o Boulevard Périphérique limita o que é a cidade e o que é a periferia, em Belo Horizonte esse papel fica a cargo da Avenida do Contorno. Isto é um símbolo que marca o quanto a recém abolição da escravatura era problemática e pouco consensual entre os proprietários de terra. Em Minas Gerais, a então cidade economicamente mais importante era Ouro Preto, e a crescente migração dos interiores para Belo Horizonte não favoreceu a qualidade de vida dos trabalhadores negros. "Belo Horizonte é uma grande roça. É o encontro das diversas pessoas, das diversas fazendas, e das diversas funções dentro de uma fazenda". Toda a construção da riqueza do Brasil independente do século XIX esteve baseada na escravidão negra e no contrabando, e Minas Gerais também reflete esse fardo. 

 

Quando perguntada sobre uma experiência de paisagem que tivesse marcado a vida, vem à sua mente um grande quintal, no bairro de Pindorama, na periferia de Belo Horizonte. Esta paisagem representa sua memória mais primitiva. O quintal fica na casa construída por sua família para acomodar os pais de Ana, quando ela ainda estava na barriga. "Foi uma construção de mutirão, de final de semana. Estou chamando de casa, mas a gente pode chamar também de barracão". Sua avó paterna mora lá até hoje. Ali, entre o quintal e o muro bem fininho que demarca o terreno, forma-se um mini túnel que ela, por sempre ter sido magrela, conseguia penetrar. Ana chama essa paisagem de "brechinha", e o considera um lugar sagrado.

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Planta da cidade de Belo Horizonte, onde se vê a Avenida do Contorno dividindo as Zonas Urbana e Suburbana (1895) | Fonte: APCBH | Acervo: CCNC

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O Banquete

São três mulheres negras em cena: duas jovens e uma senhora. Predomina o vermelho no chão, nos adereços e nos figurinos. Em um dado momento, há uma galinha empalhada, um galo que canta, e as mulheres cantarolando a música Galo Cantou. Muitas das imagens evocadas no espetáculo O Banquete (2019) surgiram no quintal da avó de Ana, que reunia filhos e netos em torno dos atos de cantar e comer juntos ao ar livre. Mylia Mary, a senhora intérprete da peça, é tia paterna de Ana, e costumava frequentar esses encontros de família. 

"Havia uma tradição, nessa época, que era do domingo na casa da avó. Era algo bem religioso". Era Júlio César quem puxava o canto. "Tocou e toca cavaquinho, pandeiro. Gostou e gosta de samba, das letras, de chorinho". Por conta de seu desaparecimento, Ana usa os dois tempos verbais para falar do pai, o grande homenageado de O Banquete. A dança era puxada pela Tia Mylia, que é carnavalesca, e pelo Tio Vicente, infelizmente morto pela pandemia de covid. 

 

"Uma outra coisa que sempre acontecia nesse quintal é que, em algum momento, todo mundo começava a chorar. As crianças nunca entendiam porquê". Durante o processo de criação de O Banquete, a adulta Ana entendeu com a Tia Mylia que aquele choro era um ritual de cura, uma maneira de lidar com a "dureza da vida". O nome O Banquete é uma brincadeira com a obra homônima de Platão, cujo tema principal é o amor, só que tratado unilateralmente da perspectiva dos homens. 

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O Banquete (2019), de Ana Pi | Intérpretes: Ana Pi, Maria Fernanda Novo e Mylia Mary | Foto: Samuel Akinruli

Mestras

Maya Deren, nascida na Ucrânia em 1917, foi uma cineasta, coreógrafa, fotógrafa e escritora. Com seus filmes, Maya dizia que queria “fazer o mundo dançar”. Entre 1947 e 1959, ela viajou ao Haiti e fez o documentário Divine Horsemen: The Living Gods of Haiti, um estudo etnográfico sobre a religião Vodu. Desde o trabalho na Fundação Pierre Verger, Ana Pi se sente influenciada pelo trabalho de Maya Deren. 

A cineasta ucraniana, por sua vez, teve como mentora Katherine Dunham, bailarina e primeira coreógrafa negra de Hollywood. No início dos anos 1940, em um Estados Unidos de segregação racial, Katherine Dunham contrata a judia Maya Deren para trabalhar como sua assistente pessoal. “A Katherine que faz essa primeira tese de que as danças negras diaspóricas estão em um estado de preservação da humanidade mais forte no Haiti do que nos demais lugares que foram marcados pelo sistema escravista”, nos conta Ana Pi. 

Katherine, que influenciou Maya, que influenciou Ana, que com certeza já influencia e ainda influenciará muitas outras mulheres.

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A cineasta ucraniana Maya Deren

A coreógrafa afro-americana Katherine Dunham

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Haiti

"O que vem à sua mente quando você pensa no Haiti?". Ana Pi faz esse convite a quem escuta a conversa. Depois, pede para que desconfiemos do que visualizamos.

País caribenho localizado na América do Norte, o Haiti foi o primeiro país latino-americano a conquistar a independência, em 1804, quando se libertou da exploração e violência do sistema colonial escravista francês. O Haiti, 'pérola das Antilhas', foi, então, a primeira república negra fora da África. Em uma “missão espacial e especial” ao país, pouco antes do início da pandemia, Ana Pi quis sentir com seus próprios poros o que significava a liberdade para os haitianos. A Revolução Haitiana, que aconteceu entre 1791 e 1804, foi uma mensagem clara para o mundo do liberalismo político: pelo menos aqui, você não vão crescer às custas do tráfico e da escravidão de ninguém. 

Influenciada não só por Maya Deren e Katherine Dunham, mas também por haitianas poetas, antropólogas, musicistas e coreógrafas, Ana fez da viagem “um jeito de aprender alguma coisa sobre coragem, sobre risco, sobre o fato de fazer o que não existe ou o que pode existir porque existe na nossa imaginação, nos nossos sonhos.” Foi com a tal desconfiança que Ana foi parar no Haiti. E é com essa desconfiança, e também com raiva, que ela segue os ensaios de The Divine Cypher, um trabalho que ela enxerga como desobediente. "Eu estou dentro da roda. Eu prefiro traduzir Cypher por roda". 

E por que a raiva? Premiada pelo MoMA no Programa Cisneros América Latina, a artista se dá conta de que “um convite desses não aconteceria em um tempo de paz”. O projeto é impossível de ser realizado tranquilamente. Para quem não ficou sabendo, em julho deste ano, o presidente Jovenel Moise foi assassinado, após meses de instabilidade política e de insegurança pública no país. 

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Montagem de divulgação do projeto Divine Cypher (2021), de Ana Pi

Brasil e luto

 

Como brasileira, a raiva se dá também pela situação no Brasil, que infelizmente soma mais de 600 mil mortos na pandemia. “Nós somos os verdadeiros e verdadeiras inimigos e inimigas desse projeto de necrópole”, diz Ana. “Projeto de extermínio”, complementa Gustavo. 

O Brasil também vive o luto com a morte de Jaider Esbell no dia 2 de novembro, perda que deixou Ana muito abalada. Artista do povo Macuxi, Jaider teve trabalhos expostos no Paço das Artes, no Espaço Philippe Noiret/França; no Centro de Artes da Universidade Federal Fluminense, no Centro Cultural Banco do Brasil (São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte), no Museu de Arte da Universidade Federal do Paraná e na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Diversos de seus trabalhos estão expostos na  34ª Bienal de São Paulo, que homenageou o artista, cobrindo suas obras com tecidos pretos

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Vista da instalação Entidades, de Jaider Esbell, na 34ª Bienal de São Paulo | Foto: Levi Fanan

Danças de rua

 

Gustavo se aprofunda no tema das danças de rua, muitas vezes ligadas à raiva, à angústia e à alegria afirmativa. São diversos os exemplos, como o pantsula, da África do Sul, o kuduro, de Angola e o krump, dos Estados Unidos. “É para glorificar de pé”, os dois dizem, sobre este último.

Ana Pi tem atravessado os signos da raiva, da cólera, do louvor e da tristeza. Aos 52'52 do episódio, ela comenta sobre a pouca atenção que essa categoria recebe no meio acadêmico. “São danças que vão ser entendidas como efêmeras, como objetos da moda, que vão ser menosprezadas por um certo circuito da dança contemporânea até outro dia". Ela explica que as danças de rua, ou periféricas, são uma operação de sofisticação das danças religiosas que permitiram que as pessoas negras da diáspora pudessem sobreviver. “Simples assim”. Pesquisadora dessas danças, Ana fala sobre as danças para Xangô, sobre o hip hop, danças de Oxum (também chamadas de Kisimbi e Dandalunda) e o vogue. “As danças urbanas vêm da periferia da cidade, não vêm do centro do poder econômico (…), elas vêm da mão de obra.” 
 

Ela sempre soube da presença dessas danças em seu corpo, apesar de ter tentado abafá-las, pois queria se inscrever em uma “paisagem contemporânea convencional”. Mas o corpo político não nos abandona. É como diz a frase-meme da internet, “neutro é shampoo de bebê”. Para Ana, o trabalho de pesquisar as danças de rua é o trabalho que organiza a sua intenção na dança. E defende com veemência essas danças. “Trisha Brown, se não me engano, disse que a dança contemporânea começa quando as pessoas resolvem tocar o chão. Quem toca o chão melhor do que a galera do break, do hip hop?”, questiona.
 

“Eu não vou parar”, Ana complementa. “Muita gente trabalhou muito para que eu esteja aqui fazendo as coisas que eu faço. Quem sou eu para 'dar chilique' e dizer que eu vou parar?”. Ela usa “chilique”, uma das tantas palavras de origem africana que incorporamos ao nosso vocabulário, como brincadeira, pois reconhece o quanto é difícil conquistar os espaços.  

Ana Pi fala da importância de seu trabalho como pesquisadora e mediadora e também tem orgulho de se dizer uma improvisadora. “Eu fico feliz que a improvisação faz parte de uma tradição negra. ‘Improvisar’. Esse verbo é negro e eu acho isso muito chique.” 

Além dos links já sugeridos, achamos um documentário que reúne algumas danças de orixás, o que pode ser uma iniciação para aqueles que ainda não conhecem as danças religiosas africanas.

NOIRBLUE

 

Ao chegar no continente africano, em uma viagem feita em 2016, o guarda da imigração pergunta a Ana:

—  De onde você é?

—  Do Brasil —  responde Ana.

—  Não —  ele retruca —  Você é daqui!

Essa pergunta, “feita como um oráculo, uma esfinge”, como bem diz Gustavo, continuou a ressoar durante toda a viagem. Para a maioria dos brasileiros negros, suas origens ainda são um mistério. Ana fala que é uma espécie de mutante. “É como se fosse o laboratório do horror flutuante”, diz, fazendo alusão aos navios negreiros que transportavam pessoas escravizadas.

Ao chegar em África, ela entendeu de onde vinha e também ressignificou a expressão racista “azul de tão preto”. Lá ela pôde ver que “o ser azul de tão preto é uma benção, é motivo de festa”. Tomada por uma euforia – “ligada no 220, ou 440 ou 660”, Ana mal conseguia dormir. “Tudo me desenlouquecia”, ela diz, fazendo referência à feliz descoberta das origens. 

Seu filme NOIRBLUE teve origem após essa viagem por nove países do território africano (Níger, Burkina, Mali, Nigéria, Angola, Guiné Equatorial, Costa do Marfim, Etiópia e Mauritânia). Nesses lugares, Ana Pi se sentiu “plenamente gente”.

Por muito tempo, a cor azul não existiu. Ou, ao menos, não existia uma palavra para nomeá-la. Em muitas línguas, a palavra criada para defini-la emergiu da cor preta. Que gestos iriam emergir se esse mesmo procedimento etimológico fosse aplicado a uma construção coreográfica? Uma dança azul que emerge daquelas danças consideradas negras. “Consideradas”, pois Ana afirma que tal definição não existe, assim como não existem “danças brancas”. Assim, surgiu NOIRBLUE, que abre espaço para a ficção e a navegação atlântica de alguns corpos periféricos.

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NOIRBLUE, 2017. Foto: Daniel Nicolaevsky

Alternância de paisagens

 

“A gente aprende a querer viajar para Paris, para Nova Iorque, para Tóquio. Mas não aprende a querer viajar para Lagos ou Luanda”. Ana Pi propõe uma alternância sadia de paisagens, pois os lugares se saturam. Ao final da entrevista, ela faz um paralelo da paisagem com a ecologia, afirmando que não podemos admitir a monocultura na paisagem coreográfica. “Tem que ser rico, cheio de nutrientes diversos”.

A conversa termina com citações. Gustavo menciona o ska Forward March, de Derrick Morgan, criado no contexto da independência da Jamaica:  Because the time has come when you can have your fun, So make a run.”

“Porque chegou a hora em que nós podemos nos divertir / Então aproveita e corre”. Ele também cita a frase “to walk together” (andar juntos), de Maya Deren. Por fim, pede a Ana que diga uma frase que brinque com os tempos presente, futuro e passado.

“Todo mundo está preparado?”, pergunta Ana, antes de nos presentear não só com uma, mas duas frases. Convidamos para que você as escute em nosso episódio, que fecha a segunda série de Um Rádio na Paisagem.

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Luanda, capital de Angola | Foto: sem crédito

Se você só chegou agora, volte algumas casas e se jogue em nosso mar de paisagens. O podcast Um Rádio na Paisagem fica no ar para todo o sempre, e com certeza, em um futuro próximo, voltaremos com mais episódios. Obrigada por nos acompanharem até aqui!
Boa viagem, navegantes!

Concepção, direção artística e entrevistas: Gustavo Ciríaco

Artistas entrevistados: Ana Pi, Bruno Levorin, João Saldanha, Laura Lima, Luciana Lara, Marcelo Evelin, Maya Da-rin e Michelle Moura

Comunicação, produção executiva e redação: Priscila Maia

Edição de som e música: Fabiano Araruna

Web Design e programação visual: Marina Lutfi

Desenhos: Gonçalo Lopes

Administração - Mídias Sociais: Mariana Marques

Produção: Dos Voos – Soluções em Arte e Design

Apoio: THIRD - Amsterdam University of the Arts

Realização: Sesc SP